domingo, 11 de setembro de 2011

SERÁ QUE O MILAGRE ACONTECEU?

A última semana de julho e a primeira de agosto foram as mais longas que vivemos nesse ano. Parecia uma noite quente, mal dormida, de pesadelos, dessas que a gente fica aliviado quando acorda.

No dia 21 de julho, pelas 18 horas, peguei o resultado da ultrassom de abdômen de João Victor. Era um exame de rotina, que não nos preocupava. Quando ele tinha 06 meses de vida descobrimos que tinha um cálculo na vesícula. Desde então, duas vezes por ano, fazia uma ultrassom para acompanharmos a evolução do cálculo.

Dessa vez, a conclusão mostrou que, além do cálculo, havia um edema (um tipo de inflamação) na vesícula. Liguei para o cirurgião que acompanhava o caso desde o ano passado. De imediato, mandou entrar com antibiótico e avisou que deveríamos marcar uma consulta com ele para, possivelmente, agenda a cirurgia de retirada da vesícula.

Não deu pra entrar com antibiótico logo. Primeiro não tínhamos receita; depois, porque conversamos com a cardiologista dele e ela não aprovou uma receita de antibiótico passada via telefone e, principalmente, porque, até então, não havia sintoma alguma de que a vesícula estivesse mesmo inflamada. Até então não havia, mas na segunda feira, pelas 15:30, ele teve uma forte crise de dor. Coitado, ficou pálido e quase desfaleceu de tanta dor. Corremos com ele para o hospital de Goiana, deseperados, com a roupa do corpo.

No hospital deram a ele uma injeção de buscopan. Alívio imediato, graças a Deus. Mas como não havia cirurgião de plantão, nem esperamos ele terminar o soro e disparamos para o Recife, para emergência do Santa Joana, lá João é velho conhecido. Chegamos no Santa Joana perto das 7 da noite. A pediatra que o atendeu nos reconheceu de outras noitadas por lá, leu os resumos das duas últimas ultrassons, e saiu para falar, via celular, para o cirurgião do hospital que, concidentemente, era o mesmo que acompanhava o caso da vesícula do João, e tinha receitado o antibiótico por telefone. Ela e já voltou com a receita pronta: Buscopan gotas, de 8/8 horas, e Zinnat ( antibiótico) 4 x dia, durante 14 dias.

Dai começou a angústia. Primeiro problema, o cirurgião que o acompanhava avisou que não operava pelos planos de saúde do João. Depois, consultamos um cirurgião em João Pessoa que, numa consulta relâmpago, coisa de 4 minutos, decidiu pelo caminho cirúrgico para o mais breve possível. Procuramos outro cirurgião, conveniado ao plano Ideal Saúde. Esse, muito cauteloso, fez uma consulta demorada, quis saber do histórico clínico do João Victor e disse que, não tinha certeza se era o momento para tirar a vesícula do nosso rapaz. Deixou explícito que, na sua opinião, numa criança como o João o melhor é só mexer o mínimo possível.

Esse último cirurgião, com seus cabelos cor de prata, sorriso sereno e voz calma, mandou suspender de imediato o antibiótico que João vinha tomando há 7 dias e pediu para repetir a ultrassom, preferencialmente com o mesmo ultrassonografista que diagnosticou o edema, Dr. Amaral, que na sua opinião e na de muitos médicos é o melhor ultrassonografista do Recife.

Voltamos ao Dr. Amaral na mesma semana.

Enquanto ele fazia o exame, desejei profundamente que o edema tivesse sumido. Meu desejo se realizou, mas não foi só edema que sumiu, o cálculo também não estava mais lá. Saimos de lá com essa conclusão no laudo da ultrassom: "Exame dentro da normalidade. Houve desaparecimento das imagens do cálculo e do edema da parede da vesícula biliar identificados em ultrassonografia anteriormente realizada neste paciente".

Na sala em que fizemos o exame, na frente do médico e da sua assistente, Valéria só ria e chorava. Eu, especulador, perguntei ao médico como o cálculo sumiu, para onde ele tinha ido, se poderia está em outra parte do corpo, próximo da vesícula. Ele respondeu que não sabia como a pedra foi expelida, disse que, talvez, o cálculo tenha saído na crise de dor e não acreditava que a pedra estivesse fora da vesícula do João, senão ele estaria com sintomas de infecção (febre alta) e muita dor. Mas João Victor estava ótimo, nada de febre, nada de dor, comendo e dormindo bem. Por fim, o Dr. Amaral deu de ombros e falou: “Foi o poder de Deus”. Tive vontade, mas não perguntei a religião dele.

Voltamos ao cirurgião de cabelo prateado. Ele ficou incrédulo. Disse nunca ter visto algo semelhante. Mas sorriu e falou: “ se antes eu já não queria operar, agora é que não opero mesmo”. Recomendou que repetíssemos a ultrassom. Perguntei se dentro de 90 dias. Ele: “não, não! Toquem a vida pra diante, basta repetir daqui a 6 meses”.

As pessoas a quem conto o caso, principalmente as que acompanharam nossa angústia de julho, ficam aliviadas do susto, mas algumas, a minoria, recomendam precaução e atenção em vez euforia e comemoração. Acho que estou ao lado da minoria. Até, demorei fazer esse post devido a essa incerteza. Não é incredulidade, é dúvida.

Não sei se o milagre aconteceu, não sei. Só sei que passada a primeira semana de agosto João Victor esteve ótimo de saúde. Justo em agosto, que dizem ser mês de desgosto, nós fechamos um círculo de angústias e retornamos ao caminho da esperança. Desse milagre não tenho dúvidas.


.


.


.

terça-feira, 19 de julho de 2011

QUEM FAZ MEDO PRA MEDIAL?


A cantiga debochada dos 3 porquinhos até serve pra fazer rima com a o nome da operadora de plano de saúde que tentou barrar João Victor. Mas preferi o trocadilho que intitula esse post. Afinal do que uma grupo empresarial que controla 3 operadoras de plano de saúde (Amil, Medial e Excelsior) tem medo?

Por mais poderosa e auto confiante, auto suficiente e autoritária que queira ser, toda grande empresa morre de medo de ter prejuízo decorrente de indenizações judiciais, sim porque a Justiça é morosa e tardia, mas um dia ela apresenta a fatura e alguém tem de pagar.

Uma grande empresa, seja ela qual for, morre de medo de fazer seus diretores e gerentes terem de passar pelo depor numa delegacia de polícia, mesmo que seja uma especializada de crimes das relações de consumo.

Não quer, também, correr o risco de responder a processos administrativos nas agências de controle do governo federal. No caso das operadoras de planos de saúde, nenhuma delas gosta de ser autuada pela ANS (http://www.ans.gov.br/).

Porém, o que assusta mesmo esses grupos é ficar mal na fita. É péssimo para os negócios passar por vilão numa conjuntura em que expressões como “inclusão” e “responsabilidade social” estão na moda. É mesmo um desastre para os negócios ser vilão numa história cujo enredo mistura preconceito, criança com Down e poder econômico.

Pois foi tanta gente reclamando, mandando e-mail pra Medial, ligando pro 0800, espalhando o caso através do face book, Orkut, blogs etc, que nem precisei usar metade do arsenal legal/institucional disponível e a Medial já resolveu voltar atrás e, mesmo a contragosto fez a inclusão de João Victor.

Quinta-feira fomos chamados para a perícia e hoje assinei, no escritório deles no Recife, nova solicitação de adesão. Na presença de uma testemunha cumpri todas as formalidades, fiz o pagamento e recebi a informação do funcionário que até o final desta semanas a inclusão estará implatada no sistema e João Victor poderá ser atendido normalmente, inclusive com algumas carências reduzidas.

Agora, como diz meu amigo Marx Igor, João Victor é o menino “mais planejado” que existe. Tem 3 planos de saúde, Ideal, Unimed e Medial. Lógico que vou cancelar a Unimed, de imediato, e o Ideal assim que ele sair das pré-existências também ficará pra trás. Mas, por um bom tempo terá que ficar com dois mesmo.

Isso é o de menos. Só espero que já tenha tido todos os aborrecimentos possíveis com a Medial, que daqui por diante a relação seja pacífica, que cada um cumpra sua parte: eu pagando em dia e eles garantindo o serviço com a qualidade que anunciam. Se for assim, tudo será bom, mas se não, não temo a refrega. Se é pra defender meu filho, nada me mete medo.

E tudo fica mais fácil quando se tem amigos. Obrigado a todos vocês... por essa, e por outras.
.
.
.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

MOTIVO E MOTIVAÇÃO PARA LUTAR ( ou Por que precisamos enfrentar um leão a cada esquina?)


Eu sabia que não seria fácil, mas também não imaginava que seria tão trabalhoso.

Não é difícil ser pai de uma pessoa com necessidades especiais. É trabalhoso, apenas trabalhoso. Nada vem fácil, “não há vitória sem luta”, mal ensaiamos a comemoração de uma conquista e já se avista nova peleja.

Em post antigo falei da inclusão de João Victor em um bom plano de saúde, mas nem precisei usar pra descobrir que não atendia às nossas necessidades. O tal plano, UNIMED Joao Pessoa, afora-se em oferecer cobertura nacional, mas, na gripe braba do João, que beirou a pneumonia, quando estivemos na emergência do Sta. Joana, tive a ideia de averiguar se lá poderia usar a Unimed recém contrata, obvio, depois de passado o período de carência. Ai a moça pediu para ver a carteirinha, olhou o documento e resolveu minha dúvida em duas frases: “ não tem escrito ‘rede nacional ‘, aqui não aceita”. Depois liguei para Unimed e me avisaram que o plano de João Victor é de cobertura nacional, p-o-r-é-m, não cobre hospitais de alto custo e que, no Recife, os tais hospitais de alto custo são o Português, Santa Joana, São Marcos, São José e Hospital Esperança. Ora, se o plano “top” da Unimed João Pessoa não é aceito nos melhores hospitais do Recife, o que será de nós se precisar ir ao HCor?

Desiludido da Unimed, voltei às pesquisas e resolvi contratar a MEDIAL SAÚDE, com cobertura nacional e com direito a bons hospitais, inclusive o HCor. Assinei o contrato e paguei a primeira parcela à corretora, que ficou de me contactar para agendar a perícia que o plano exige, especialmente porque declarei que ele já fez cirurgia cardíaca e tem síndrome de down.

Sei que desde semana passada que tento em vão agendar a tal perícia. Depois de muitas histórias mal contadas e desculpas esfarrapadas, disseram-me para procurar outra opção de plano de saúde, que a operadora MEDIAL não tinha interesse em admitir meu filho, pois trata-se de um usuário, que com certeza, dará mais despesa que redimento.

Fiquei mudo, petrificado, suspenso por um misto de revolta e incredulidade. Que mundo perverso esse que meu anjo resolveu habitar?!

Eu sabia que, se pudessem, as operadoras de plano de saúde recusariam a adesão de velhos, portadores de AIDS, câncer e toda sorte de doença grave. Que não incluíram jamais as crianças autistas, as downs, as portadores de paralisia cerebral e todas as demais com qualquer doença ou incapacidade decorrente de má formação congênita. Sabia, mas não acreditava que fossem capazes de desafiar a lei, especificamente uma lei, a Nº 9.656, de 3 de junho de 1998, que no artigo 14 diz: “Em razão da idade do consumidor, ou da condição de pessoa portadora de deficiência, ninguém pode ser impedido de participar de planos privados de assistência à saúde”. Mas estão impedindo João Victor. Por enquanto, porque vou lutar para que seja admitido. Não será o preconceito tacanho de alguns que determinará as escolhas que hoje fazemos por João Victor nem as opções que ele fará no futuro. Se não reajo, daqui a pouco ele só irá brincar no parquinho no horário de menor movimento, só sentará na mesa mais escondida do restaurante, terá de viver recluso para não chamar a atenção ou não causar “desconforto” aos não downs, tidos sãos, que se acham normais, mas que, na verdade, são pobres, deformados de alma.

É preciso dizer basta enquanto se pode falar, enquanto a boca ainda está livre da mordaça, enquanto estamos de pé. Porque, depois de calarem a nossa boca, quebrarem nossas pernas e nos colocarem de joelhos, será tarde demais. Retomar território perdido é muito mais difícil do que avança na conquista e, mais ainda, do que manter o que já conquistamos.

Gostaria que fosse menos trabalhoso criar meu filho. Mas não troco essa dádiva por nada desse mundo. A alegria que ele me dar suplanta toda a fadiga.

.

.

.